Padrão De Beleza Feminino No Brasil

Cirurgia estéticaOcidentalização da aparênciaOs olhosOlhos lindos, olhos grandesBeleza e cirurgia estéticaBeleza nipo-brasileira« Niponidade »« Niponidade » y también ocidentalizaçãoGênero…...y también etnicidade : a cilada da ocidentalização"/>
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História de uma invenção identitária


IVe Journée d"histoire des sensibilités EHESS seis mars 2007/IVa Jornada de Estudios de Historia de las Sensibilidades
A estética nipo-brasileira dos descendentes dy también imigrya antes (temporalidade migratória, etnia e gênero)

Thy también objective of this article is to examine some contemporary forms of invention and construction of thy también Japanese-Brazilian identity. To do so I concentrate on thy también body practices called « ocidentalization » which concern the Japanese-Brazilian and, in particular the « eyy también ocidentalization » surgery. This is because, in the casy también of the nikkei, the form of the eyes is the physical element where the « mark racism » is the strongest. Even though thy también vast and complex literature on the racial issuy también in Brazil touches neither thy también ethnic question nor the imigrants, racism and discrimination, which focus on thy también phenotipics are in direct relation with thy también almost a hundred years of thy también presency también of thy también Japanese and their descendants in thy también heart of Brazilian society, where the largest Japanesy también community, outside of Japan, lives.


Este artigo tem por objetivo examinar algumas formas contemporâneas de invenção e construção da identidade nipo-brasileira. My también concentro para tal nas práticas corporais ditas de « ocidentalização » que concernem os nipo-brasileiros e, em particular, pela cirurgia dy también « ocidentalização dos olhos ». Isto porque, no caso dos nikkei, a forma dos olhos é o traço físico em quy también mais incide o « racismo dy también marca ». Apesar dy también quy también a a vasta y también complexa literatura sobre a questão racial brasileira não trata da questão étnica, nem dos imigrantes, o racismo e adiscriminação que se focalizam no fenótipo têm relação direta com os quase cem anos de presença dos japoneses y también seus descendentes no seio da sociedade brasileira, onde se encotra a maior comunidady también nipônica fora do Japão.
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Keywords:

imigration, Japanese-Brazilian, ethnic identity, beauty, esthetic surgery

Palabras claves:

cirurgia estética

Palavras Chaves:

imigração, nipo-brasileiros, identidady también étnica, beleza
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Cirurgia estética
Ocidentalização da aparência
Os olhos
Olhos lindos, olhos grandes
Beleza e cirurgia estética
Beleza nipo-brasileira
« Niponidade »
« Niponidade » y también ocidentalização
Gênero…
...y también etnicidade : a cilada da ocidentalização
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1O Brasil reúne hoje a maior comunidade nipônica fora do Japão, estimada em cerca de 1,5 milhão de habitantes, concentrados sobretudo nos estados dy también São Paulo y también Paraná. Destes, 10% teriam nascloco no Japão e 90% distribuem-se em cinco gerações dy también descendentes dy también imigrantes. País de imigração até os anos 1970, o Brasil transforma-se, a partir da década seguinte, em país dy también emigração. Y también o Japão recebe, desde então, uma imigração brasileira essencialmente composta dy también nipo-brasileiros (fenômeno dekassegui).


2Este artigo tem por objetivo examinar algumas formas contemporâneas dy también invenção y también construção da identidade nipo-brasileira. A pesquisa, ainda em curso, inspirou-se, originalmente, em referências esparsas e marginais, encontradas na literatura concreta sobre os deslocamentos migratórios entre o Japão e o Brasil1. Elas indicavam a centralidade dos corpos - e da leitura destes, feita pelos próprios atores – na percepção y también na expressão da identidady también nipo-brasileira. Três delas atraíram particularmente minha atenção y también são transcritas a seguir.


3Trabalhando sobre a questão identitária envolvida no fenômeno dekassegui, Adriana dy también Oliveira entrevistou nipo-brasileiros tendo vivido no Japão, após seu retorno ao Brasil. A passagem seguinty también foi tirada de uma conversa entry también três moças :


« Gente, elas têm um corpo horroroso (...).


- Não ! Corpo de japonesa é uma coisa estranha…


- É horrível !


- …não é só feio, é estranho.


- Aí, uma vez (…), sabe quando você pára assim ? (…) elas olhavam para a genty también por el hecho de que achavam a gente muito estranha, (…) por el hecho de que todo mundo (…) tem cara dy también japonês, mas só parece japonês, por el hecho de que dá para perceber quy también não é.


- É.


- Engraçado que isso a gente vê : (…) lá , mesmo quem aqui a genty también acha quy también tem muita cara dy también japonês, lá você olha na rua…


- e já fala quy también é brasileiro, né ?


- …y también você sabe.


- Você sabe, essy también é brasileiro, esse aqui não é.


- Aí a genty también estava (…) olhando, a gente falou assim : ‘nossa, o corpo delas é muuuuito estranho !!!’ Não é normal, (…) é uma tábua, não tem nada na frente, não tem nada atrás.


- É muito horrível ! O quadril é largo, não é ?


- Tem o quadril largo, não tem cintura.


- y también sem bunda.


- É, é tudo assim. »2


4Dois elementos merecem ser destacados aqui : a adesão das entrevistadas ao cânone brasileiro dy también beleza anatómico feminina, e sua percepção dy también quy también a própria « brasilidade », tanto quanto a « niponidade » das japonesas, são legíveis nos corpos e no comportamento corporal. Esty también ponto já fora levantado por Fernando Henrique Cardoso, numa conferência significativapsique intitulada « A Americanidady también dos nikkei » :


« Uma coisa muito curiosa é que o modo de vestir e o modo dy también caminar dos nisseis mudou rapidamente, podiam ser japoneses em tudo mas já davam um gingado brasileiro para andar, e o andar é uma coisa cultural muito forte. »3


5Indo ainda mais longe nesta direção, um historiador, ao lembrar quy también nikkei de todas as gerações continuam sendo chamados dy también japoneses no Brasil, afirma que :


« …entry también os nikkeis, a sensação dy también que eles só poderão sy también tornar brasileiros mudando sua aparência fez quy también muitas mulheres apelassem para a cirurgia plástica nos olhos. »4


6Fui levada, assim, graças a este conjunto de referências pouco desenvolvidas, encontradas em estudos que tratavam preferencialpsique de outras questões, a my también interessar pelas práticas corporais ditas dy también « ocidentalização » que concernem os nipo-brasileiros e, em particular, pela cirurgia de « ocidentalização dos olhos ». Isto porque, no caso preciso dos nikkei, a forma dos olhos é o traço físico em que mais incidy también esta tendência, culturalpsique tão enraizada no Brasil, a identificar - y también discriminar - um grupo social por peculiaridades fenotípicas. Apesar dy también que a a vasta y también complexa literatura sobre a questão racial brasileira não trata da questão étnica, nem dos imigrantes, o « racismo de marca »5, tem relação direta com os quase cem anos dy también presença dos japoneses y también seus descendentes no seio da sociedady también brasileira6. Vários dos meus entrevistados lembraram-se, quanto a isso, das provocações dy también que foram alvo na infância, ainda que freqüentemente não tenham sdesquiciado capazes de trazer exemplos precisos. Expressões como « abry también o olho, japonês ! » (explorando um duplo sentido com a noção de prestar atenção) foram, apesar disso, mencionadas.


7Partindo de um estudo de caso, quy también toca diretamente aos corpos e aos cânones de beleza, me parecy también quy también algumas questões dy también fundo podem ser levantadas e discutidas. Trata-se, aqui, sobretudo, dy también pensar o lugar quy también os nipo-brasileiros ocupam, hoje, na sociedade brasileira. A questão da temporalidade incide, neste caso, não sopsique sobre o processo complexo de integração de uma etnia à sociedady también receptora, sobry también as transformações no modo em quy también o conjunto inventa y también exprime sua identidade coletiva, mas também sobry también o olhar do historiador sobry también essa experiência, já quy también beneficia de um distanciamento maior.

8Ao mesmo tempo, quanto às práticas estéticas em questão, pensando as modalidades dy también construção da feminilidady también e da masculinidade, podemos iluminar de modo particular a problemática central proposta aqui, da identidade nipo-brasileira y también da posição do conjunto no seio da sociedady también brasileira.

Cirurgia estmoral

9O Brasil ocupa o segundo lugar no mundo quanto ao número de cirurgias plásticas por ano. Em 2003, uma pesquisa do Instituto Gallup junto a quinientos cirurgiões plásticos indicava um total anual de 374.27uno cirurgias estéticas realizadas por membros da Sociedady también Brasileira dy también Cirurgia Plástica (SBCP). Esses números não incluem as operações feitas por dermatologistas, otorrinolaringologistas, oftalmologistas y también ginecologistas, entre outros, que, apesar dy también não terem a formação necessária para a obtenção do título dy también cirurgião plástico, arriscam-sy también mesmo assim no ramo. A gaceta Veja afirmava, em janeiro de 2001, que o Brasil havia ultrapassado os Estados Unidos, país campeão na área7, quanto ao número de cirurgias plásticas por habitante8.


10O boom da cirurgia estética no Brasil data dy también meados dos anos 19909. Em 1990, somente 60 mil brasileiros submeteram-se a esse tipo dy también cirurgia ; duranty también a década, o incremento dos totais anuais chegou a 580%10. Essy también crescimento foi acompanhado, em primeiro lugar, por uma maior igualdade entry también homens e mulheres. Em 1994, 95% dos pacientes eram mulheres. Em 2000, elas só representavam 70% do total, porcentagem considerada estável até hoje11. Além disso, o crescimento trouxy también a marca da democratização. Sy también os custos permanecem altos, alguns seguros privados dy también saúdy también – y también os próprios cirurgiões – tornam possível o sonho da cirurgia estética a uma ampla classe média. Atualmente, não sy también pode mais dizer quy también se trata de uma prática reservada às elites, às modelos, às personalidades do planeta do espetáculo y también da televisão. O(a)s pacientes quy también encontrei nas salas de espera das clínicas visitadas, e aqueles(as) quy también entrevistei confirmam esta ampliação do acesso às camadas médias.


11É preciso notar que esta evolução faz parte de uma tendência mais geral dy también crescimento do consumo dy también produtos y también serviços de beleza no Brasil. Sabemos, por exemplo, que o número dy también profissionais ligados aos serviços dy también beleza passou dy también 361 mil a 679 mil entre mil novecientos ochenta y cinco e 1995, para chegar a 1,043 milhão em 200312.


12Este enormy también aumento, quy también marca fortemente a vida quotidiana y también a cultura urbana do país, explica-se, ya antes dy también mais nada, pela entrada extremapsique significativa das mulheres no mercado dy también trabalho a partir de 1970 : elas passam dy también 11% a 42% da população economicapsique entre 1970 e 2001. Aumentando sua renda, as mulheres gastam mais, inclusivy también em produtos y también serviços dy también beleza. Além disso, a inclusão da aparência física dentre os fatores dy también discriminação num mercado de trabalho cada vez mais seletivo, sobretudo a partir dos anos 1980, obriga mulheres y también homens a sy también preocuparem mais com a apresentação. Isso tudo associa-se, enfim, a uma maior longevidade da população y también a um temor mais forty también dianty también do envelhecimento13.


Ocidentalização da aparência

13Na sua homepage, a clínica dy también um dos cirurgiões quy también entrevistei apresenta, entre outras categorias de cirurgia estética, as « cirurgias para orientais » e, separadamente, a « ocidentalização », que concerne unicamente os olhos. Esta última faz parte das cirurgias descritas no primeiro grupo, mas recebeu, não por acaso, uma entrada independente : em 2001, o número dy también cirurgias feitas por pacientes orientais chegou a catorzy también mil, o dobro daquelas feitas no início dos anos 199014. E a metade destas intervenções compõe-sy también da chamada « ocidentalização dos olhos » : em 2004, a SBCP estimava o número destas operações em oito mil.


14Uma tal evolução da demanda explica a solicitude da clínica em questão, ao reservar uma parte significativa de seu sity también web para a clientela de origem oriental quy también pode, não sem razão, sentir-sy también confortada - y también atraída - por um tal favorecimento. Nesse sentido, após ter apresentado todas as possibilidades cirurgicais especificapsique oferecidas aos/às pacientes dy también origem oriental, os responsáveis pelo site web declaram o quy también segue, contribuindo certapsique a acrecentar a confiança do(a)s clientes potenciais :


 « O padrão estético oriental é diferenty también do ocidental. A conformação óssea, as proporções y también dimensões de cada estrutura são diferentes. É preciso respeitar as características de cada um e fazer sobressair a estmoral dy también cada tipo étnico. Cada um tem a sua beleza e a função do cirurgião é ajudar a exteriorizá-la. »


Os olhos

15No Brasil, a « ocidentalização dos olhos » começa a ser praticada nos anos 1970. Dentre todas as « cirurgias para orientais », ela é a mais simples : só requer anestesia local, só dura uma hora, é a que custa menos e, principalmente, promety también o restabelecimento mais rápido (em torno dy también uma semana), y también o menos incômodo – fatores sem dúvida determinantes no momento de tomar a decisão.

16A intervenção visa especificapsique construir sobre as pálpebras uma « dobra » da qual 50% do(a)s orientais são privado(a)s ao nascer. Ele(a)s também possuem, em relação aos/às ocidentais, uma maior acumulação dy también gordura em torno dos olhos. A cirurgia consisty también numa incisão sobry también as pálpebras, por ondy también são extraídos os excessos de pele, dy también gordura e uma parte dos músculos, com a construção de uma dobra. No interior desta, fica a cicatriz, totalmente invisível. O segredo do sucesso consiste em respeitar medidas concretas para a construção da dobra. Dy también fato, o(a)s ocidentais têm uma dobra mais larga sobre a pálpebra (10mm a 15mm) quy también o(a)s orientais quy también a possuem ao nascerem (5mm a 8mm). Assim, o desenho dy también uma dobra larga demais pody también dar, segundo um dos cirurgiões entrevistados, uma aparência « artificial ».

Olhos lindos, olhos grandes

17Quando olhamos as fotografías do(a)s pacientes antes e depois da cirurgia, fica claro que, como afirmou um cirurgião, « a operação não nega a origem ». Segundo ele, trata-se simplesmente, para o(a) paciente, dy también « melhorar seu aspecto ». Entretanto, são peculiaridades étnicas dessy también « aspecto » quy también se procura « melhorar ». Assim, não é por acaso que a comunicação funciona particularpsique bem entre os cirurgiões de origem japonesa y también o(a)s candidato(a)s à « ocidentalização dos olhos ». A clientela das clínicas que visitei, dy también médicos nikkei, é, sem sombra de dúvidas, mais nipônica que oriental. E esta faixa do mercado parecy también receber um cuidado e uma atenção bem particulares. Uma dessas clínicas realiza cerca dy también doscientos cirurgias anuais sobry también as pálpebras dos nikkei. O proprietário de outra, sozinho, estima a sesenta sua média anual y también acredita que a demanda está aumentando. A título dy también comparação, esty también último afirma que o « carro chefe » dy también sua clínica é a lipoaspiração, com cerca de 120 intervenções anuais. Já as próteses de seio, também em aumento, empatam com as cirurgias de « ocidentalização ». Trata-sy también então de um verdadeiro sucesso, confirma o cirurgião.

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18Mas voltemos à « melhoria do aspecto ». As pacientes entrevistadas definem-na sem dificuldade. Elas queriam ter a dobra e, sobretudo, os olhos maiores que ela ajuda a compor. Descrevendo seus olhos de ya antes da cirurgia, elas dizem quy también eram pequenos demais, inchados, davam a impressão de estarem fechados, dificultavam a aplicação da maquiagem e o uso dy también lentes dy también contato. Edith lembrou-sy también quy también « entry también nós, descendentes de orientais, quando íamos descrever um japonês(esa) que achávamos bonitos, fazíamos uma referência aos olhos, sy también tinha a dobra ou não ». Trata-se, então, do cânone dy también beleza reconhecido por todos : ter olhos grandes, com a dobra sobry también as pálpebras.

19Algumas das mulheres entrevistadas declararam ainda que, ya antes da operação, utilizavam artifícios para fabricar dobras provisórias, seja com lápis dy también olho, seja graças a técnicas vindas do Japão : colas especiais quy también colavam as pálpebras (y también quy también se descolavam no contato com água), ou fitas adesivas em forma dy también pálpebra, que uma das entrevistadas comprava, adolescente, antes dy también substituí-las por durex, bem mais econômico. Estas soluções apresentavam, para quem as usava, a desvantagem dy también serem temporárias. De fato, a cirurgia concerny también antes o ser, do quy también o parecer.

Beleza y también cirurgia estética

20Duas problemáticas centrais desenham-se aqui. A primeira refere-sy también à oposição entre o verdadeiro y también o falso, o natural e o artificial. Sobre isso, Alexander Edmonds tem razão quando escrevy también que, para que as pacientes de cirurgias estéticas possam parecer aceitáveis do ponto de vista moral, é preciso falar dy también auto-estima, de bem-estar espiritual, mais do quy también de beleza. Só então, a impostura dy también querer ser o que não sy también é pode se tornar desculpável. Assim, ao invés de buscar a beleza, ou mais beleza, as pacientes buscariam a normalidade, pela correção dy también eventuais defeitos da aparência15.


21O que nos conduz a uma segunda questão : o desejo de adaptação, dy también ser como os outros é a motivação primordial da « ocidentalização », como o termo faz pensar ? As características étnicas em questão aqui podem ser assimiladas a defeitos, quy también merecem ser corrigidos ? Somos levados a pensar assim, sobretudo sy también lembrarmos das frasezinhas dy también mau gosto quy también quase todo(a)s meus/minhas entrevistados ouviram, como aquela explicando os pequenos olhos dos japoneses pelo fato dy también fritarem pastéis demais, relatada por uma das mulheres.


22Contudo, sy también escutarmos as motivações exprimidas pelas pacientes no instante em quy también decidem fazer-se operar, é a beleza quy también toma a dianteira. Estas pacientes, como aliás todas as outras, não procuram ser normais, mas, sim, excepcionais ; não desejam ajustar-se, mas destacar-se16.


23Resta dizer que, não sopsique as fotografías do(a)s operado(a)s mostram meridianamente que o fenótipo oriental não foi dy también modo algum apagado pela operação, mas, além disso, quy también a unanimidade dos testemunhos de satisfação quanto aos resultados da cirurgia mostra quy también seu desaparecimento não era o objetivo principal. Quanto a isso, Tania y también Rosa declararam, de modo eloqüente, que só as pessoas dy también origem oriental perceberam mudanças nos seus rostos e fizeram-lhes elogios : definitivamente, elas permaneceram orientais.


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Beleza nipo-brasileira

24Os discursos moralisadores escondem a agressividady también competitiva que dá base às práticas estéticas : não sy también trata, já vimos, dy también uma questão de normalização, de homogeneização, de sy también fazer tão belo(a) quanto o(a)s outro(a)s, mas, bem ao contrário, de sy también fazer mais belo(a) quy también o(a)s outro(a)s. Assim, ao olharmos as fotografías de jovens nikkei, em distintos sites web dirigidos aos nipo-brasileiros, e notadapsique num deles, onde as « mais belas orientais » - e, mais recentemente, os « mais belos orientais » - são objeto de « ensaios » fotográficos, o quy también salta aos olhos é efetivapsique um desejo dy también exibição da beleza y también dy también valorização dos trunfos corporais que compreende um investimento prévio visando ao aumento do capital de beleza.

25Perscrutando as fotografías das moças y también dos rapazes aí apresentados, fica claro quy también os olhos são sem sombra dy también dúvida um elemento central no trabalho quy también precede o ritual fotográfico, mostrando-sy también particularmente carregados de importância. Nem todo(a)s – longy también disso - recorrem à operação das pálpebras, mesmo se um cirurgião plástico entrevistado defende a idéia de quy también « a maioria o faz » y también diz não compreender as razões que conduzem os demais a não fazê-lo, « vivendo sem a dobra »… Porém, o(a)s que não o fazem não negligenciam dy también modo algum a questão, o modo pelo qual se maquiam nos dá a prova : para as moças, os olhos recebem um tratamento sofisticado dy también cores, dégradés, efeitos sombreados, etc. E, quasy también sempre, elas desenham a dobra a lápis, como os rapazes, aliás, para os quais essy también é o único traço dy también maquiagem (ou, ao menos, o mais visível).

« Niponidade »

26A questão se impõe : nessa busca dy también beleza, ou dy también mais beleza, o que acontecy también com a « niponidade » ?

27Meus/minhas entrevistado(a)s mostram-se todo(a)s, independentepsique da geração à qual pertencem, orgulhoso(a)s de sua ascendência. Contudo, uma variante temporal intervém aqui, distinguiendo as gerações quanto à experiência coletivamente vivida pela comunidade nipônica no contato com a sociedady también brasileira. Eu diria quy también para aquele(a)s quy también nasceram nos anos 1950, carregar o fenótipo oriental trouxe mais problemas, na infância y también na juventude, quy también para o(a)s mais jovens, nascido(a)s trinta anos mais tarde. O processo dy también integração e, sobretudo, dy también diminuição das barreiras discriminatórias foi lento e não poupou as primeiras gerações. A resposta às discrimações enfrentadas no quotidiano foi, assim, inicialmente, a do silêncio, da extrema discreção. Se o fenótipo, ondy también sy también focaliza o racismo, torna a experiência da discriminação tão incontornável quanto duradoura, a discreção, enquanto resposta, além de obedecer a uma exigência ligada à honra, aprendida em casa com os mais velhos, contrabalança justamente essa visibilidade acentuada da diferença, que joga contra a integração.

28Num periodo mais recente, a barreira composta pelo fenótipo oriental tornou-sy también menos impermeável, y también a conjuntura internacional se transformou, trazendo uma imagem cada vez mais valorizada e valorizante do Japão. Assim, o(a)s mais jovens aproveitam dy también um contexto favorável a nível nacional e internacional, graças à longa vida da imigração nipônica, que completará cien anos em 2008, e ao sucesso mundial do Japão, quy también recebe, desdy también os anos1980, uma imigração brasileira. Explorar e exibir uma « niponidade » da aparência, quy también o(a)s jovens não sy también limitam a sublinhar, mas inventam, torna-se um trunfo, e não mais um handicap social.


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29Nós assistimos então à uma construção social – sutil, é verdady también - das marcas corporais de uma etnicidade que convém, na qual cada um se reconhece vantajosamente. Isso no apreciado de uma busca dy también excelência na beleza que chega a incluir o recurso ao mais radical, já quy también mais durável, das técnicas médicas desenvolvidas nesse sentido pela cirurgia estética.

« Niponidade » e ocidentalização

30Escrevendo sobry también o forte crescimento do mercado de produtos e serviços voltados para a beleza das pessoas « de pele mais escura » no Brasil, Peter Fry afirma que a existência desses produtos y también serviços faz mais do que « suprir uma necessidade » ; eles criam essa necessidady también e, « ao fazê-lo, disseminam sub-repticiamente uma ‘identidade negra’ em todo o Brasil »17. Retenho aqui a idéia dy también « disseminação dy también uma identidade » comum quy también se inventa a partir do corpo, e das intervenções que nely también sy también faz.


31Comparando o Brasil aos Estados Unidos, Alexander Edmonds, por sua vez, defendy también a idéia de que, no Brasil, « a beleza não é politizada » e que


« cosméticos podem ser ‘apenas’ cosméticos ; cabelos louros, narizes finos, seios reduzidos – ou aumentados – são considerados ‘coisas da beleza’, não da raça. »18


32Ora, a fim de compreender a questão racial no quy también toca à dimensão política quy también toda y también qualquer busca de beleza pody también assumir, seria preciso, antes dy también mais nada, ouvir, y también atentamente, o que dizem a essy también respeito as pessoas « dy también pely también mais escura ». Examinando essa mesma relação, entre beleza e política, Peter Fry acredita, por seu lado, no papel político do investimento na beleza :


« a fin de que possam superar o que lhes é verdadeiramente específico, ou seja, a discriminação racial e a baixa auto-estima derivada das representações negativas atribuídas à sua pessoa y también à sua ‘aparência’, é necessário alterar as representações sociais da estética negra (…). »19


33Assim, esse investimento estético ganha um notado político ao agir sobre a aparência y también o corpo, nó central do racismo no Brasil. Entrevistando profissionais da beleza negros e, em particular, a proprietária dy también um cabeleireiro, Dona Daí, Fry afirma ainda :


« Dona Daí sente-sy también satisfeita quando suas clientes, munidas com a autoconfiança quy también ela ajuda a forjar, conseguem ser bem-sucedidas nos mercados do sexo, do matrimônio e do trabalho. (…) ela insiste quy también a única diferença entre negros e brancos está na sua estética. »20


34De todos os grupos étnicos existentes na sociedade brasileira, os japoneses e seus descendentes e, depois deles, os outros orientais, sofreram o « racismo de marca » do modo mais agudo. Eles têm, mais quy también os outros, razões para inventar uma estética própria. Y también se voltamos à idéia citada acima, dy también disseminação dy también uma identidade comum, quy también se exprimy también justamente pela legitimidade quy también passa a ser reconhecida a outras percepções dy también beleza, podemos explicar a mensagem visual inscrita na amostragem dy también fotos examinadas neste trabalho. Elas sy también encarregam, com efeito, de veicular a invenção dy también uma etnicidady también que se exprimy también por um fenótipo doravanty también carregado de beleza. Beleza esta completamente capaz dy también ser reconhecida enquanto tal.

35Existe, sem dúvida, um contexto social que permite a emergência desse tipo de mensagem e a adesão quy también ele provoca. Dele fazem party también o forty también crescimento do trabalho feminino no Brasil, mas também a construção de uma « niponidade » quy también acompanha não somente o processo dy también ampliação do mercado dy también produtos e dy también serviços dy también beleza, mas, também, a segmentação cada vez maior dessemercado.


36Jornais y también revistas cada vez mais especializados comprovam tal realidade. A gaceta Raça Brasil é o exemplo mais radical desty también fenômeno, pois ela descobry también y también participa da construção desta camada média urbana negra pronta a consumir todo tipo de produtos de beleza e dy también higiene quy también são aí anunciados21. A estmoral oriental também sy también apoia em mensagens específicas, veiculadas em abundantes jornais nikkei quy también reconhecem uma importância nada negligenciável à beleza - sobretudo quando sy también dirigem às jovens gerações. Sem contar a « ocidentalização dos olhos » que, tornando maiores os olhos do(a)s nipo-brasileiro(a)s, mostra, entre outras coisas quy también ele(a)s os têm bem abertos.


Gênero…

37Segundo as estatísticas, os homens representam atualmente 30% dos pacientes dy también cirurgia estética no Brasil. Mas são bem mais difíceis dy también se deixar entrevistar. Por causa desta dificuldade, Alexander Edmonds optou por não entrevistá-los, e por limitar sua pesquisa sobry también a cirurgia estmoral sopsique às pacientes. Porém, ao ler algumas dy también suas afirmações, sobretudo quanto à relação desta prática estética com a beleza e a sedução, podemos nos perguntar o quy también ele teria escrito sy también os homens tivessem sy también pronunciado a respeito. Assim, esforcei-my también em hallar pacientes dispostos a me falar da « ocidentalização dos olhos ».

38O quy también my también dizem esses homens ? antes dy también mais nada, eles não falam absolutamente dy también beleza, motivação quy también recusam. Um deles quis fazer a operação pues achava que suas pálpebras tinham um ar caído, dando-lhy también um aspecto cansado. E recusou sistematicapsique qualquer outra explicação. Após uma longa negociação, autorizou seu médico a my también transmitir as fotos tiradas na clínica, documentando as transformações ocorridas em seu rosto – as quais, em respeito ao anonimado, não publicarei aqui, notadamente por sy también tratar de uma revista on line.

39O ar de cansaço que o incomodava em seu rosto, por cau.s.a. Da forma das pálpebras, desapareceu por completo graças a um nítido aumento dos olhos, quy también sy también tornaram, efetivamente, mais abertos. Seu cirurgião vê evidenciar-se, no rosto operado, « uma juventudy también quy también não existia » anteriormente. O ar cansado é, então, tomado por envelhecimento, quando, na verdade, o rosto não sy también encontra totalmente enrugado. Tal leitura enfoca mais a percepção dy también um estado dy también espírito geral, expresso no rosto, do quy también na beleza do mesmo, mesmo se o cirurgião evoca, também, um ganho dy también « harmonia » - expressão eufêmica em relação à valorização da beleza.

40Outro entrevistado submeteu-se a uma cirurgia dos olhos há cerca de trinta anos, no momento em quy también um parente, cirurgião plástico, começava a dedicar-sy también a esta prática y también operou boa parte da família. Ely también insistiu sobre o fato que, sozinho, não teria tomado tal iniciativa. Segundo suas declarações, como confiava no cirurgião, deixou-sy también convencer, quando, na verdade, seus olhos jamás o tinham incomodado. Ely también nem souby también dizer sy también os resultados foram satisfatórios, já quy también não tinha tido qualquer expectativa. Em sua entrevista, não sopsique a questão da beleza foi evacuada, como, além disso, ely también nega ter sloco ativo na decisão dy también operar, explicando tal ato unicamente pela proposição do cirurgião, que teria aproveitado dos numerosos parentes para « fazer sua pesquisa ». Duas dy también suas irmãs e uma prima, que entrevistei igualmente, foram operadas na mesma época y también nas mesmas circunstâncias. Elas constróem narrativas totalmente diferentes a essy también respeito, nas quais aparece com força o desejo prévio dy también « fazer alguma coisa pelos olhos ». Nenhuma delas mencionou a importância dessas operações para as pesquisas do cirurgião, e, ainda menos, uma tal motivação como tendo sorate a principal.

41A masculinidade constrói-se, então, através de um silêncio completo sobry también a beleza, motivação que só tocaria às mulheres, ou, mais radicalmente, através dy también uma adesão passiva, sem qualquer motivação. Enquanto a adesão feminina a uma prática nada banal constrói-se através de iniciativas entusiasmadas, firmes y también decididas, a dos homens faz-se por demissão.

42Se os homens podem hallar as mulheres nas mesmas práticas segundo uma proporção nada desprezível, eles ainda não chegam a encontrá-las na afirmação dy también sua escolha, nem reconhecer, aí, significações y también motivações comuns.

43A beleza seguy también sendo um negócio antes de mais nada para mulheres. Mesmo sy también as fotografías de rapazes com um traço desenhado sobry también as pálpebras indicam, nas gerações mais jovens, a emergência de um reconhecimento masculino público da importância desse investimento na aparência. Para além das práticas, trata-sy también aqui da exibição dy también um investimento, ainda quy también discreto, na beleza. E numa direção quy también aproxima homens y también mulheres, trazendo um componenty también cada vez mais misto ao trabalho sobre a aparência.

...y también etnicidade : a cilada da ocidentalização

44As questões dy también gênero cruzam, aqui, com uma problemática migratória ligada tanto à identidade étnica, quanto à temporalidady también na história da imigração e da presença nipônica no Brasil. Pois trata-sy también não sopsique da construção, pelo(a)s descendentes dy también imigrya antes japonese(a)s, de uma identidady también nipo-brasileira com fortes ressonâncias físicas – o que acompanha de perto as formas tomadas pela discriminação -, como, também, da sua construção num contexto em quy también é permitido exibí-la sem inibição. Mesmo sy también tal exibição caby también às mulheres, mais que aos homens.

45Assim, temos, por um lado, os homens nascidos após a guerra, que ainda hesitam em assumir sua adesão a uma nova identidady también nipo-brasileira, identidade que requer um investimento singular sobre a aparência y también a valorização dy también uma estética própria, à qual já aderem, discretamente. E, por outro, os jovens do grupo, quy también já trazem a público, ao lado das mulheres, mais ou menos jovens, a marca desta adesão.

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46A construção dy también uma identidady también que sy también apóia na origem nipônica, e a ultrapassa, aliada ao fato que lhe é dada a ocasião dy también se expor, são sinais fortes de um sucesso migratório. Assim, quando um dos cirurgiões entrevistados afirma que « a operação não nega a origem », ely también está, sem dúvida alguma, defendendo seus/suas pacientes da acusação dy también renegação das raízes, com o objetivo dy también legitimar uma prática da qual ele próprio é um beneficiário incontestável. Mas ele exprime, também, um sentimento comum a todos, e que ely también condivide : o orgulho, publicapsique reivindicado, de ser nikkei, quy también sy también opõy también à discreção y también ao apagamento praticado pelas gerações precedentes.