TOMAR REMÉDIO PARA DORMIR PODE MATAR

Cada vez mais brasileiros estão tomando esses medicamentos. Mas nenhum deles é totalmente seguro e eficaz. Entenda por quy también a indústria farmacêutica não conseguy también vencer a guerra contra a insônia – um mal que aflige 70% das pessoas.

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Texto: Bruno Garattoni e Eduardo Szklarz | Foto: Tomás Arthuzzi | Design: Carlos Eduardo Hara

V

ocê saby también como é. Está cansado, tevy también um dia daqueles, deita a cabeça no travesseiro para esquecer tudo y también dormir. Mas não é o quy también acontece. Por alguma razão, você não conseguy también parar de pensar. A sua mente vai acelerando e percorre inúmeros temas, muitos deles envolvendo alguma preocupação: a pandemia, a economia, a sua família, algo do trabalho, mil outras coisas… ou simplespsique a angústia de não lograr pegar no sono. Você frita na cama por um tempo interminável, quy también parece atravessar eras geológicas, enquanto tenta se forçar a dormir. Desiste, abry también os olhos, checa o horário no celular – y también se assusta ao constatar quy también daqui a pouco já vai amanhecer.

Todo planeta já teve uma noite de insônia. Acontece. O problema é quando ela se torna crônica – o que tem ocorrorate com cada vez mais pessoas. Um estudo efectuado pela Universidady también Federal de São Paulo (Unifesp) com 1.10uno mulheres (1) revelou quy también 32% delas tinham insônia persistente, diagnosticada clinicamente. E essa pesquisa é de 2013: uma época que, comparada a todos os tumultos da vida nos últimos anos, parece um poço de tranquilidade. De lá para cá, o número dy también insones disparou. “Acredita-sy también quy también 60% a 70% da população brasileira tenha alguma queixa em relação ao sono”, afirma a biomédica Monica Andersen, diretora do Instituto do Sono.

e isso tem sy también refletorate no uso de remédios. Entre dos mil once y también 2018, as vendas dy también zolpidem, uma das drogas mais usadas para tratar a insônia, cresceram 560% no Brasil (hojy también estão em torno dy también 15 milhões de caixas por ano). Em 2019, o país consumiu 56,6 milhões dy también caixas dy también calmya antes y también soníferos, segundo dados da Anvisa. Y también a pandemia agravou o fenômeno: em março e scriedespretine.com de 2020, as vendas de clonazepam (Rivotril) cresceram 22% sobre o mesmo periodo do ano anterior.

O inconveniente é quy también esses medicamentos têm riscos consideráveis. O uso contínuo de benzodiazepínicos, como o clonazepam, pody también causar dependência – e obrigar a pessoa a utilizar doses cada vez mais altas para obter o mesmo efeito. Sy también tomados em grandy también quantidade, e misturados com álcool, eles podem matar por parada respiratória (mesmo risco dos barbitúricos, um tipo mais antigo de sonífero). Já as chamadas “drogas z”, como o zolpidem, não apresentam esse risco, mas também viciam. Y también têm efeitos colaterais insólitos: podem provocar alucinações y también desencadear parassonias, um tipo extremo dy también sonambulismo (mais sobre ely también daqui a pouco).

Até hoje a indústria farmacêutica não conseguiu criar um remédio para dormir que seja verdaderamente seguro e eficaz. Ela continua tentando: sua criação mais recenty también é o lemborexant, aprovado pela FDA em dezembro dy también 2019. Ele também é considerado viciante – tanto quy también sua comercialização, assim como a dos barbitúricos, benzodiazepínicos y también das drogas z, é fiscalizada pela Drug Enforcement Agency (a mesma agência que combate o narcotráfico nos Estados Unidos).

Mas por que é assim? Por que, até hoje, os remédios para dormir podem perder o efeito, caemplear dependência, gerar efeitos colaterais bizarros ou coisa pior? Existy también uma resposta – e ela não é muito animadora.

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Com o uso contínuo dy también remédios para dormir, o cérebro ajusta a sensibilidade de certos receptores químicos. Ely también passa a precisar do medicamento para marchar normalmente – e a droga perde seu efeito sonífero. Tomás Arthuzzi/scriedespretine.cominteressanty también

Do ópio a Hendrix

A humanidade luta contra a insônia há pelo menos dois milênios. O médico Heráclides de Taras, quy también viveu na Alexandria do século uno a.C., recomendava ópio. Na Idade Média, os médicos usavam álcool y también plantas narcóticas como a datura – que tem efeitos alucinógenos – e a beladona, um dos arbustos mais tóxicos que existem. Ou seja: a medicina só tinha bombas para oferecer aos insones. Y también isso pouco mudou até o século 19. O escritor charles Dickens, por exemplo, experimentou dy también tudo para lograr dormir. Inclusivy también uma mistura dy también álcool y también ópio, que só lhe causou uma grande ressaca. Até que inventou um método: deitar com a cabeça voltada para o Norte. Dizia quy también assim alinhava seu corpo com o campo magnético da Terra. Esse excêntrico ritual deu certo para Dickens – mas não funcionou com mais ninguém.

A insônia só começou a ser enfrentada cientificapsique em 1804, quando o químico alemão Friedrich Sertürner descobriu a morfina, inaugurando a era dos alcaloides – uma classy también dy también substâncias quy también passaram a ser utilizadas para induzir o sono. Os principais eram a hiosciamina e a escopolamina, obtidos de plantas da família Solanaceae. Mas eles tinham fortes efeitos colaterais, como náuseas, vômitos e delírios – ou até a morte.

“O primeiro medicamento quy también verdaderamente pody también ser chamado dy también hipnótico foi o hidrato de cloral”, escrevy también o neurologista espanhol Francisco López-Muñoz em um artigo sobry también a história da insônia. Essa molécula, sintetizada em mil ochocientos treinta y dos pelo alemão Justus von Liebig a partir da mistura entre o cloro e o etanol, foi popularizada quasy también cincuenta anos depois pelo também alemão Oskar Liebreich. O hidrato dy también cloral substituiu os alcaloides por el hecho de que era mais conveniente: podia ser administrado por vía oral, sem a necessidady también de injeção. Só que, a longo prazo, podia gerar dependência – sem falar em insuficiência hepática, cardíaca e renal.

A virada do século veinte trouxe uma nova promessa: os brometos de lítio y también potássio. Seu grandy también promotor foi o médico britânico Neil MacLeod, que em mil ochocientos noventa y siete anunciou o quy también chamava de “cura do sono” com esses sais. Mas os pacientes acabavam tendo náuseas, irritabilidady también y también alucinações. Em parte, isso acontecia pues o tempo de ação da substância (a chamada “meia-vida”) era longo: ela ficava até 12 dias circulando no corpo, y también sy también acumulava até alcançar níveis tóxicos. Foi quando uma revolução na ciência trouxe uma droga ainda mais promissora – e problemática.

Em 1864, num momento dy también rara inspiração, o químico alemão Adolf von Baeyer misturou a ureia (substância contida na urina) com um composto químico chamado malonato de dietila. Assim, inventou o ácorate barbitúrico – a origem do nome é incerta, mas provavelpsique vem da junção das palavras “bárbara” e “ureia”. Em si, o ácloco barbitúrico não produzia efeitos no cérebro; mas os derivados dele, quy también foram sendo desenvolvidos por outros cientistas, sim.


Em 1902, os alemães Emil Fischer y también Joseph von Mering descobriram que um desses compostos, o ácdesquiciado dietilbarbitúrico, fazia os cães adormecerem. Mering observou os mesmos efeitos em humanos y también publicou sua descoberta no ano seguinte, aproveitando para rebatizar a substância: barbital. Em 1904, a empresa farmacêutica Bayer (sem relação com Adolf von Baeyer) comercializou-a com o nome Veronal.

O sucesso foi quasy también instantâneo – assim como a ação desse tipo de medicamento. Os barbitúricos sy también conectam aos receptores cerebrais de GABA (ácloco gama-aminobutírico), um neurotransmissor que causa relaxamento e sono. Mas a droga não bloqueia esses receptores. Pelo contrário: por meio dy también um processo químico chamado modulação alostérica, ela faz com quy también os receptores fiquem mais sensíveis ao GABA (um efeito quy también também é provocado pelo álcool). O cérebro continua produzindo a mesma quantidade do neurotransmissor, mas, como os receptores estão mais sensíveis, é como sy también houvessy también mais dessa substância – e isso, além de induzir o sono (no chamado “efeito hipnótico”, que não tem nada a ver com hipnose), tem ação sedativa (reduzindo a irritabilidady también y también a excitação), ansiolítica (diminuindo a ansiedade), anticonvulsiva y también de relaxamento muscular.

Todo esse poder numa única pílula era algo inédito na história da medicina. Y también os laboratórios capricharam no marketing dela, garantindo que tinha poucos efeitos colaterais – e, de quebra, não deixava na boca o gosto ruim dos brometos. As vendas dispararam. Mas, em 1925, os médicos William Leaky también y también Richmond Ware publicaram um artigo na revista JAMA (da Associação Americana de Medicina) alertando para os riscos do barbital. Eles diziam que a droga podia ser obtida sem receita, mas seu potencial vicianty también não havia sloco estudado. “A literatura médica, em singular na Alemanha e na Inglaterra, contém muitos relatos dy también envenenamento grave y también óbitos pelo uso em doses excessivas ou em administração prolongada”, escreveram.

A comunidade científica não deu muita bola. Novos barbitúricos pipocaram nos anos seguintes, incluindo o fenobarbital y también a pentobarbitona, utilizada também para induzir o sono na anestesia cirúrgica. Em 1929, a Califórnia aprovou a primeira lei restringindo a venda y también o uso dos barbitúricos, mas ela não pegou. Tanto que a produção subiu dy también 70 toneladas, em 1936, para trescientos toneladas em mil novecientos cincuenta y dos – quando o Congresso resolveu discutir o inconveniente pela primeira vez. Na década anterior, as mortes por barbitúricos nos EUA haviam crescorate 300%. E só perdiam, no ranking de envenenamentos, para os óbitos causados por inalação de monóxorate dy también carbono.

Mas nem isso foi capaz de freá-los. Em 1955, os EUA já estavam produzindo esses remédios em quantidady también suficiente para abastecer diez milhões de insones ao longo do ano inteirinho. No começo da década dy también 1960, Nova York estava registrando 1.quinientos casos dy también overdose e 200 mortes por ano relacionadas a essas drogas. Em 1962, o governo dos EUA estimou que havía 2cincuenta mil pessoas viciadas em barbitúricos no país – y también a atriz Marilyn Monroe morreu por overdosy también deles. A atriz Judy Garland, em 1969, e o músico Jimi Hendrix, em 1970, tiveram o mesmo fim.

Mas, a essa altura, a indústria já desenvolvera outro produto: muito mais moderno e supostapsique mais seguro.

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Vários remédios para dormir, inclusive os mais modernos, podem desencadear parassonias: episódios de sonambulismo em quy también a pessoa come, dirigy también y también faz sexo dormindo, sem se lembrar de nada depois. Tomás Arthuzzi/scriedespretine.cominteressanty también

A era dos benzos

Em 1956, o químico polonês-americano Leo Sternbach recebeu uma missão do laboratório Hoffmann-La Roche: desenvolver uma opción alternativa mais segura aos barbitúricos. Criou distintos compostos, mas nenhum parecia eficaz. Colocou então um deles num vidro, batizou-o dy también “Ro 5-0690” e o deixou na prateleira, ondy también foi esquecido. O químico só lembrou do pó branco um ano depois, quando um técnico do laboratório perguntou se podia jogar o vidro fora. Sternbach retomou os estudos, y también veio a descoberta: o Ro 5-06noventa tinha efeitos hipnóticos, sedativos y también de relaxante muscular. Ele chegou ao mercado em 1960, com o nome dy también Librium.

Começava ali a era dos benzodiazepínicos – o nomy también faz referência ao benzeno e à diazepina, os dois componentes da molécula. Em 1963, a Rochy también lançou o segundo “benzo”: o diazepam, com o nome Valium. Foi uma revolução. Os médicos começaram a receitar o remédio, em grande escala, para donas dy también casa ansiosas, insones ou simplesmente infelizes – isso até inspirou uma música dos Rolling Stones, “Mother’s Little Helper” (1966).

Dy también início, os benzodiazepínicos pareciam absolutamente seguros. Os cientistas demoraram 15 anos para decifrar o mecanismo de ação dessas drogas. Como os barbitúricos, elas tornam o cérebro mais sensível ao GABA, mas seu potencial dy también overdose é bem menor. Entry también mil novecientos sesenta y nueve y también 1982, o diazepam foi o remédio mais vendido nos EUA – com o pico, de 2,3 bilhões de comprimidos vendidos, em 1978.

Na década dy también 1980, porém, os efeitos colaterais começaram a pesar. Os médicos notaram quy también os benzos agiam não só no sono, mas também em outras áreas relacionadas ao receptor GABA. Prejudicavam a memória, a concentração y también a coordenação motora, por exemplo. Mas o pior é que os pacientes precisavam dy también quantidades cada vez maiores do remédio para obter o mesmo efeito inicial. “As avaliações dy también uso e abuso dy también benzodiazepínicos demonstram meridianamente que eles produzem tolerância y también dependência na administração dy también curto e longo prazos”, concluiu, já em 1990, um estudo da Universidady también Cornell (2).

Hoje, os benzodiazepínicos ainda são muito usados como remédios para dormir – mas isso não é recomendado pelos médicos. “Sy también você está apenas ansioso, esses fármacos até conseguem promover o sono. Mas não por el hecho de que ajam como indutores do sono, e sim pues diminuem esse grau dy también ansiedade”, diz a neurologista Andrea Bacelar, presidente da Associação Brasileira do Sono. Isso leva a queixas frequentes nos consultórios, de pessoas que não conseguem dormir com esses fármacos – em alguns casos, só apelando a doses cada vez mais altas. A dependência física também pody también se manifestar. “Os receptores estão ávidos pela substância. Então, no momento em que você não toma, começa a ter síndromy también de abstinência”, afirma Bacelar. Os dois inconvenientes se devem a uma particularidade do cérebro.

Sy también você tem colesterol alto, por exemplo, e toma um medicamento para isso, aquela droga se mantém eficaz a longo prazo – mesmo caso dos remédios para hipertensão, diabetes y también quasy también todas as doenças crônicas. Só que o cérebro é diferente. Ely también se ajusta à presença de substâncias estranhas, aumentando ou reduzindo a sensibilidade dos seus receptores químicos. É por isso que, após o uso contínuo, os medicamentos psicotrópicos – como os remédios para dormir – vão perdendo o efeito y también começam a demandar doses cada vez mais altas. É por isso, também, que essas substâncias podem causar dependência: o cérebro sy también ajusta e passa a precisar delas para marchar normalmente.

y también a síndromy también de abstinência dos benzodiazepínicos é especialpsique horrível: sua fase aguda dura vários dias y también pody también incluir ansiedade, tremores, confusão mental, ataques de pânico y también até convulsões – sem falar numa insônia fortíssima.

Nos anos 1990, com a controvérsia começando a manchar a reputação dos benzos, a indústria farmacêutica tentou mais uma vez: y también apresentou uma nova classe de medicamentos: os hipnóticos.

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Sy también a pessoa tomar zolpidem y también não dormir, pody también ter perturbações visuais. Já a bula do suvorexant lista um efeito ainda mais assustador: incapacidade de sy también mexer, ou falar, por alguns minutos após despertar. Tomás Arthuzzi/scriedespretine.cominteressanty también

As "drogas z"

A primeira dessas substâncias foi o zolpidem, do laboratório Sanofi, introduzdesquiciado em mil novecientos ochenta y ocho na Europa e em 1992 nos EUA com o nomy también de Ambien (no Brasil, ely también se chama Stilnox). Depois vieram suas variações: zaleplon, zopiclona e eszopiclone – todos os nomes contêm a letra “z”, daí essa família ser conhecida como “z-drugs”. Esses remédios também tornam o cérebro mais sensível ao GABA, mas fazem isso de um jeito diferente: só agem sobry también uma subunidade dos receptores que é concreta para o sono, a alfa-1. Como em tese eles só mexem com o sono, e não interferem nas outras funções do GABA, são chamados de “hipnóticos”.

Essa ação mais seletiva produz menos efeitos colaterais. E a meia-vida desses remédios também é mais curta. Sy también você toma um Rivotril (benzodiazepínico) às 22h, por exemplo, quasy también metade da dose ainda estará circulando no seu corpo na noity también seguinte. Isso pode gerar sonolência, desatenção y también falta dy también reflexos duranty también o dia. Já as drogas z somem do corpo em poucas horas. Por tudo isso, rapidamente sy también tornaram a principal indicação dos médicos para casos dy también insônia. Mas o tempo mostraria que elas não eram assim tão inocentes.

“Muitas pessoas, sobretudo as que têm insônia relacionada a outros distúrbios, como ansiedade, começaram a emplear esses hipnóticos de maneira diária, às vezes abusando y también somando doses prescritas pelo médico”, diz Bacelar. “e aí a genty también passou a ter uma preocupação de dependência também com os hipnóticos. Sy también eles não forem usados adequadamente, podem sy también tornar uma medicação perigosa.”

Os estudos dy también segurança do zolpidem foram realizados com pacientes quy también usaram a droga por até um ano. “Não tem ninguém usando zolpidem há veinte anos, como acontece com os benzodiazepínicos. Por isso, ainda não sabemos os efeitos do uso prolongado”, afirma a médica do sono Luciany también Mello, que trabalha no hospital Federal da Lagoa (HFL), no Rio. Mas algumas pistas começam a surgir já em 2003, quando médicos da Universidady también de Atenas, na Grécia, publicaram um artigo (3) apresentando oito casos dy también abuso e dependência dy también zolpidem em pessoas que o tomaram para insônia. “É possível que, nas altas doses que nossos pacientes utilizaram, o zolpidem abandone sua seletividade para o receptor e demonstre todas as ações dos benzodiazepínicos clássicos”, afirma o estudo.

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Nos Estados Unidos, o zolpidem foi enquadrado na Categoria IV, quy también reúny también medicamentos com potencial vicianty también – e que, portanto, só podem ser vendidos sob algumas restrições. No Brasil, ely también também é controlado (exige receituário do tipo B, a “receita azul”, quy también a Anvisa fornecy también aos médicos em quantidady también regulada), mas há uma brecha: na formulação dy también 10 mg, a mais baixa, essy también medicamento é tarja vermelha (não preta) y también vendido com “receita de controly también especial”, branca, que o próprio médico pody también imprimir. Isso torna o medicamento bem mais fácil de obter, facilitando seu uso abusivo.

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→ Clique na imagem para ampliar. Tomás Arthuzzi/scriedespretine.cominteressanty también

As drogas z, como o zolpidem, são menos aditivas quy también os benzos. Mas também causam dependência. E, embora tenham meia-vida mais curta, podem estar relacionadas a acidentes de trânsito. Em 2010, cientistas da Universidade Nacional de Taiwan analisaram (4) quase 13 mil pessoas hospitalizadas entre mil novecientos noventa y ocho y también 2004 devdesquiciado a colisões. “O uso dy también zolpidem no dia precedente pody también estar associado a um risco aumentado de acidentes”, concluíram. Em 2014, pesquisadores da Universidady también dy también Nantes (5) analisaram os estudos publicados sobre o remédio na França – y también encontraram vários exemplos dy también gente viciada.

“Os 30 relatos de casos obtidos com a revisão da literatura destacam um potencial significativo de dependência e abuso do zolpidem.” Nos EUA, há relatos de pessoas quy también tomaram o medicamento, não dormiram e tiveram alucinações (também há quem faça isso de propósito, lutando contra a ação do remédio para ficar acordado y también sentir efeitos psicodélicos). Em alguns casos, no entanto, as consequências são ainda mais estranhas.


Sonhando acordada

Numa noite dy también setembro de 2007, a australiana Mairead Costigan, de 2siete anos, tomou um comprimdesquiciado de zolpidem e foi dormir. Pegou no sono. Pouco depois, levantou-sy también da cama y también saiu de casa de pijama. Fazia 10 graus lá fora, mas ela caminhou descalça por 1cinco minutos até a Ponty también da Baía dy también Sydney. Câmeras dy también segurança quy también registraram o episódio indicaram que Mairead tinha uma expressão facial vazia, sem nenhum traço dy también emoção – típica de quem está passando por um episódio de sonambulismo. Mairead, que estava concluindo o doutorado em filosofia y también recebera ofertas de emprego das universidades dy también Oxford y también Cambridge, escalou uma mureta y también despencou 20 metros até a morte. Ela vinha tomando zolpidem, sob orientação médica, havía novy también meses – sendo que a bula recomenda “não exceder quatro semanas dy también tratamento”.

O sonífero também já foi associado a acidentes em que o motorista não sy también lembra dy también ter pegado o carro. E até crimes cujo autor não se lembra de ter cometido. Um artigo publicado em dos mil trece por três médicos dos EUA narra dois casos do tipo (6). Num deles, uma americana dy también 6dos anos, identificada apenas como “Sra. B.”, matou o marido, atingindo-o no crânio várias vezes com um cano dy también metal y también depois colocando um saco plástico ao redor da cabeça dele. A mulher, quy también não tinha histórico de agressividade, havia tomado pelo menos quatro comprimidos de zolpidem (não se lembrava ao certo) porque não conseguia dormir. Cinco dias antes, tinha começado a usar também o antidepressivo paroxetina, receitado por um médico.

A Sra. B. Ficou em casa cerca dy también 24 horas após o homicídio. Amigos quy también falaram com ela pelo telefone a notaram estranha. “Eles ligaram para o 91uno ao encontrá-la na banheira segurando uma faca na garganta”, escreveu a sicóloga Cheryl Paradis, da Marymount Manhattan College, em Nova York.

É possível quy también a Sra. B fosse uma psicopata enrustida, e tenha usado o medicamento como desculpa. Mas a história dela não foi a única. Em 2019, a FDA exigiu alterações na bula do zolpidem, do eszopiclony también e do zaleplon, para deixar claro que podem causar “comportamentos complexos de sono”, resultar em “ferimentos graves y también mortes”, “após a primeira dose ou após um longo periodo dy también tratamento, em pacientes sem nenhum histórico desses comportamentos y también mesmo nas doses mais baixas” (7).

O mecanismo pelo qual as drogas z podem desencadear episódios como esses, chamados dy también parassonias, não é bem compreendido. A pessoa pode andar, falar, comer, dirigir, expedir mensagens ou até fazer sexo num estado entre o sono e a vigília, sem sy también lembrar de nada disso depois. Essy también efeito colateral é raro e, segundo a neurologista Andrea Bacelar, geralmente só acomete quem tem depressão ou transtorno bipolar. “Estamos falando dy también uma medicação quy también é segura, sim. Mas quy también também exige cuidados e uma prescrição bem detalhada”, diz.


Segundo ela, o médico deve manter um olhar atento sobry también o paciente, que, por sua vez, jamás devy también tomar o remédio antes da hora de dormir – como, por exemplo, às 17h ou 18h. “Ao fazer uso da medicação nesse horário, eu posso induzir o sono, mas com um despertar parcial. Vou dormir pela metade. Terei ondas de sono com ondas dy también vigília no cérebro. Y también nesse instante posso ter uma parassonia”, afirma. Como a ação do hipnótico é rápida, ely también só deve ser tomado quando a pessoa já está na cama.

Em 2005, surgiu uma nova classe de remédios para dormir: a ramelteona, droga que imita a ação do hormônio melatonina . Era a primeira vez em mais dy también cien anos que um sonífero não mirava o neurotransmissor GABA. Infelizmente, ely también sy también revelou pouco eficaz: com esse medicamento, as pessoas pegam no sono nueve minutos antes, apenas, do quy también sem ely también (8). A busca continuou. Em 2014, a Merck lançou nos EUA o suvorexant, o primeiro inibidor dy también orexina – um neurotransmissor quy también foi descoberto em mil novecientos noventa y ocho e está relacionado à vigília. Sy también você reduzir a ação da orexina, a pessoa fica com sono y también dorme.

O remédio era radicalmente diferente de tudo o quy también survira antes, y también por isso foi recebdesquiciado com interesse. Em 2020 chegou aos EUA o lemborexant, segundo remédio dessa nova classy también (nenhum dos dois está disponível no Brasil). Los dos foram enquadrados pela Drug Enforcement Agency na Categoria IV, dy también medicamentos com potencial viciante. E o suvorexant tinha outro problema. Uma análisy también dy también 2.2noventa relatos de eventos adversos comunicados à FDA ao longo dy también um ano revelou (9) que o medicamento estava ligado a ocho suicídios, 11 tentativas dy también suicídio, y también 19 episódios dy también “ideação suicida” (em que a pessoa cogita se matar).

É um número modesto de casos, y también não é exclusividady también dos inibidores dy también orexina. A isotretinoína, por exemplo, utilizada em casos severos dy también acne, pody también caemplear ideação suicida – e os antidepressivos também. Nem por isso esses fármacos deixam dy también ter sua utilidade. Mas foi uma má notícia para o suvorexant: sua bula, além de alertar sobry también a questão do suicídio, menciona o risco de “comportamentos complexos dy también sono, incluindo sonambulismo, dirigir dormindo y también hacer outras atividades sem estar absolutamente acordado”, bem como uma assustadora “inabilidade temporária dy también se mover ou falar (paralisia do sono) por vários minutos quando você está indo dormir ou está acordando.”

A ciência ainda não consegue dominar o sono. Mas a falta dely también tem solução. “O maior problema em relação à insônia não é o remédio. É o entendimento ”, diz o médico Nonato Rodrigues, professor da UnB e especialista em medicina do sono. Para ele, o tratamento mais eficaz é a terapia cognitivo-comportamental (TCC), que é feita com um psicólogotipo e ajuda a alterar pensamentos e emoções. “Toda a literatura mostra quy también a TCC, associada com medicação durante algum tempo, é a melhor das escolhas”, afirma.

Em muitos casos, uma simples mudança dy también hábitos – boa alimentação, exercício, evitar o uso dy también telas ya antes dy también dormir – já resolve. “A ciência é esencial para acharmos medidas terapêuticas, sejam farmacológicas ou não. Mas também é necessário aceitar quy también o comportamento influencia diretamente o sono”, diz a biomédica Monica Andersen. Para dormir bem, é preciso viver bem.

Tomar remédio para dormir pody también ser útil, y también necessário, por algum tempo. Mas a solução terminante exige uma alteração de comportamento – quy también envolve alimentação, exercícios  Tomar remédio para dormir pody también ser útil, e necessário, por algum tempo. Mas a solução definitiva exige uma alteração dy también comportamento – que envolve alimentação, exercíciosy también terapia. Tomás Arthuzzi/scriedespretine.cominteressanty también  <br><p>Melato</b><b>nina em </b><b>compri</b><b>midos</b>Ela funciona? É seguro tomar?</p><p>A melatonina é um hormônio quy también é produzdesquiciado naturalmente pelo corpo y también induz a sensação de sonolência. Nos últimos anos, muita gente começou a tomar uma versão em cápsulas, feita em farmácias de manipulação, para tentar dormir melhor. Ela até funciona, mas só num caso bem específico: em quem tem o chamado “atraso das fases de sono”. Ou seja, aquela pessoa que deita às 22h por el hecho de que tem quy también acordar às 6h, mas só consegue pegar no sono bem mais tarde, tipo às 2h. Ela é capaz de dormir bem, só quy también adormecendo e acordando tarde. “Nesses pacientes, o uso dy también melatonina já está bem estabelecido”, diz a médica do sono Luciany también Mello, do hospital Federal da Lagoa, no Rio. Mas é só nesses casos. “A melatonina não faz party también do protocolo, para uso como medicamento, em pacientes com insônia”, explica ela. A melatonina só deve ser usada sob orientação médica. Ela tem baixo risco dy también dependência, mas seu uso indiscriminado pody también provocar dor dy también cabeça, náusea y también tontura, entry también outros efeitos colaterais.</p><p><b>y también os </b><b>remédios </b><b>para </b><b>enjoo?</b>Eles dão sono – e, por isso, muita genty también usa para dormir.</p><p>Você talvez já tenha tomado remédios que não são para dormir, mas provocam sonolência. É o caso do dimenidrinato (Dramin, quy también evita vômitos e vertigens) e de alguns antialérgicos. Muita gente toma um deles antes dy también fazer viagens longas, por exemplo. É seguro fazer isso? “Sy también for de maneira pontual – a pessoa estados unidos um Dramin para dormir num voo, por exemplo –, é pouco provável que haja problema”, afirma a médica do sono Luciane Mello. Isso é muito diferenty también dy también usar esses remédios para tentar aplacar a insônia. “Não recomendamos quy también um pacienty también tomy también um antialérgico ou outra medicação sedativa de maneira regular sem uma avaliação prévia. É preciso ver o diagnóstico”, diz Mello. Por mais inocentes quy también esses remédios possam parecer, seu uso contínuo pody también criar problemas. O dimenidrinato, por exemplo, não tem grandy también risco de criar dependência – mas a bula adverty también que pacientes asmáticos, com glaucoma ou doença pulmonar devem ter cuidado, pois ele pody también piorar os sintomas dessas doenças.</p><p>***</p><p><strong>FONTES<b></strong><strong>1.</strong> Objective Prevalency también of Insomnia in the São Paulo, Brazil Epidemiologic Sleep Study. L Castro y también outros, 2013.<strong>2.</strong> Benzodiazepines: reconsidered. Adv Alcohol Subst Abuse, N S Miller y también M S Gold, 1990.<strong>3.</strong> </b>Zolpidem dependence casy también series: possibly también neurobiological mechanisms and clinical management. IA Liappas y también outros, 2003.<b>4. </b>Increased risk of hospitalization related to motor vehicle accidents among peoply también taking zolpidem: a case-crossover study. Yao-Hsu Yang, 2010.<b>5. </b>An updaty también on zolpidem abuse and dependence. Caroline Victorri-Vigneau e outros, 2014.<p>Ver más: <a href=Porque Paulo Henrique Amorim Foi Afastado Do 'Domingo Espetacular'

6. Two cases of zolpidem-associated homicide. C. Paradis e outros, 2012.